De certo modo, a lógica do desejo
engana-se no seu objecto logo no seu
primeiro passo: o primeiro passo
da divisão platónica que nos faz escolher entre
produção e aquisição. Se pusermos o
desejo do lado da aquisição, teremos uma
concepção idealista do desejo
(dialéctica, niilista) que o detetmina ptimeiro como
falta (manque), falta de objecto,
falta do objecto teal. É vetdade que o outro lado,
o lado (produção», não é
ignorado. Deve-se a Kant uma revolução crítica na
teoria do desejo ao defini-lo
como «a faculdade de set pelas suas representações
causa da realidade dos objectos
destas representações». E não é por acaso que
Kant, para ilustrar esta
definição, recorre às crenças supersticiosas, a alucinações e
fantasmas: sabemos bem que o objecto
real só pode set produzido por uma causalidade
e mecanismos externos; mas este
saber não rios impede de acreditar no
poder interior que o desejo tem
de engendrar o seu objecto, ainda que sob uma
forma irreal, alucinatória ou
fantasmática, e de representar esta causalidade no
próprio desejo". A realidade
do objecto enquanto produzido pelo desejo é, pois, a realidade psíquica. Logo,
podemos dizer que a revolução crítica não altera nada
de essencial: este modo de
conceber a produtividade não põe em questão a concepção
clássica do desejo como falta.
mas apoia-se, baseia-se nela, e limita-se a
aprofundá-la_ Com efeito, se o
desejo é a falta do objecto real, a sua própria
realidade está numa «essência da
falta» que produz o objecto fantasmático. O
desejo concebido como produção,
mas produção de fantasmas, foi perfeitamente
exposto pela psicanálise. Ao mais
baixo nível de interpretaçâo isto significa que o
objecto real que falta ao desejo
remete para uma produção natural ou social
extrínseca, enquanto que o desejo
produz intrinsecamente um imaginário que
duplica a realidade como se
houvesse um «objeto sonhado por detrás de cada
objecto real» ou uma produção
mental por detrás das produções reais. E é evidente
que ninguém pretende que a
psicanálise se dedique ao estudo dos «gadgets» e
dos mercados, na sua forma mais
miserável, a de uma psicanálise do objecto (psicanálise
do pacote de massa, do automóvel,
ou do «fulano»). Mas mesmo quando
o fantasma é interpretado em toda
a sua extensão, já não como um objecto, mas
como uma máquina específica que
faz intervir o desejo, essa máquina é apenas
teatral, e deixa subsistir a
complementaridade do que ela própria separa: é então a
necessidade que é definida pela
falta relativa e determinada do seu próprio objecto,
enquanto que o desejo aparece
como aquilo que produz o fantasma e se produz
a si mesmo separando-se do
objecto, mas também redobrando a falta, levando-
a ao absoluto, transformando-a
numa «incurável insuficiência de ser», «uma
falta-de-ser que é a vida». Por
isso se apresenta o desejo apoiado nas necessidades,
continuando a produtividade do
desejo a fazer-se a partir das necessidades e da
sua relação de falta com o
objecto (teoria do apoio_ Em suma, quando se reduz a
produção desejante a uma produção
de fantasmas, temos que nos limitar a tirar
todas as consequências do
princípio idealista que define o desejo como uma falta,
e não como produção, produção
«industrial, Clément Rosset diz e muito bem:
sempre que se insiste numa falta
que faltaria ao desejo para definir o seu objeto,
«o mundo vê-se dobrado noutro
mundo qualquer, segundo este itinerário: o objecto
falta ao desejo; logo, o mundo
não contém todos os objectos, falta-lhe pelo
menos um, o do desejo; logo,
existe um algures que contém a chave do desejo
(que falta ao mundo)".
22
Clemem Rosset, Logique du pire, PU.F., 1970, p. 37.
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